Em um cenário frequentemente marcado por polarizações, a proteção da fauna silvestre emerge como um dos raros e potentes temas capazes de unir o Brasil de ponta a ponta. Seja nas grandes metrópoles ou no interior profundo, o sentimento de pertencimento e a urgência em preservar nossas espécies nativas transcendem divisões ideológicas e socioeconômicas.
Com a recente divulgação dos resultados da pesquisa nacional inédita realizada pelo Instituto Vida Livre em parceria com a Quaest, torna-se público um diagnóstico contundente: a fauna brasileira é um pilar central da nossa identidade nacional. Para a maioria dos cidadãos, o cuidado com esse patrimônio não é apenas um desejo abstrato, mas uma questão que deve estar entre as prioridades do país, quando pensam no assunto.
Um consenso moral e prioritário
A preservação dos animais silvestres é um valor consolidado para a população: 92% dos brasileiros consideram o tema importante ou muito importante. Mais do que uma intenção abstrata, a proteção ambiental é vista como uma obrigação do Estado: 68% afirmam que este deve ser um tema prioritário para o país, mesmo diante de outros desafios estruturais.
Gráfico 1: O quanto é importante para você preservar os animais silvestres no Brasil?

Gráfico 2: Considerando a situação atual do Brasil, preservar o meio ambiente e os animais silvestres:

Esse rigor reflete-se na rejeição a práticas que violam o bem-estar animal: 83% da população defende penas mais rigorosas para quem caça animais silvestres e 84% reconhecem o contrabando de fauna como um problema sério no país. Além disso, 86% concordam que evitar a extinção é essencial para o equilíbrio da natureza.
Tabela 1: Posicionamento social em relação à temas sobre a fauna

Identidade e a “confusão” da fauna nativa
Embora o afeto seja um consenso, 92% dos brasileiros dizem gostar de animais, a pesquisa identifica uma lacuna na percepção sobre o que define a fauna nativa. Quando perguntados sobre o primeiro animal que representa o Brasil, o cachorro lidera com 42% das menções, seguido pela onça-pintada (17%) e o gato (9,7%).
No recorte estritamente silvestre, aparece a confusão conceitual: o leão é citado por 15% dos brasileiros como um animal silvestre do país, aparecendo à frente de espécies nativas como o tamanduá e o lobo-guará.

A fauna no quintal: o silvestre próximo ao urbano
A percepção da fauna silvestre no Brasil não está restrita a biomas distantes; ela faz parte do cotidiano das cidades. De acordo com o levantamento, 60% dos brasileiros afirmam encontrar animais silvestres em áreas urbanas com frequência (sendo 24% “muito frequentemente” e 36% “frequentemente”). Como esperado, essa convivência é mais acentuada entre moradores de áreas ruralizadas, como roças e fazendas (41%) e casas em áreas rurais (34%), enquanto nos apartamentos o índice cai para 21%.
Gráfico 3: Em sua opinião, com que frequência é comum encontrar animais silvestres em áreas urbanas (ruas, parques, quintais)?

Essa proximidade traz desafios práticos, especialmente em situações de conflito ou acidentes. Quando um animal silvestre é ferido em ambiente urbano, a opinião pública sobre o custeio do resgate se divide: 35% acreditam que o responsável pelo acidente deve arcar com os custos, 34% atribuem a conta ao poder público (Prefeitura/Governo) e 26% depositam a confiança nas ONGs para assumir o cuidado.
O papel das instituições e a crise de confiança
Para a sociedade, a responsabilidade é compartilhada sobre os animais silvestres: 72% acreditam que o cuidado com a fauna deve ser dividido entre sociedade e governo.
Gráfico 4: Na sua opinião, de quem é a responsabilidade de cuidar dos animais silvestres no Brasil?

As ONGs emergem como os atores de maior legitimidade. Elas lideram o índice de confiança com nota média de 5,9, superando as empresas privadas (5,4) e o governo (4,1). Notadamente, as ONGs brasileiras (54% de confiança) inspiram mais credibilidade que as internacionais (51%).
Gráfico 5: Pensando na confiança que você tem em algumas instituições. O quanto você confia (escala de 1 – não confia a 10 – confia muito):

Oportunidades para o engajamento e o mercado
A proteção à fauna também se mostra um diferencial competitivo para o setor privado. 76% dos brasileiros afirmam que estariam mais propensos a consumir produtos de empresas que apoiam a causa. Além disso, 88% apoiam a criação de incentivos fiscais para empresas que investem em projetos de proteção da fauna.
Tabela 2: Posicionamento sobre práticas empresariais responsáveis

Quanto ao consumo de conteúdo, o interesse é vibrante: 59% dos brasileiros consomem notícias sobre animais com frequência. Os temas de maior apelo concentram-se em narrativas positivas:
Tabela 3: Preferência por consumo de conteúdos sobre animais

Da empatia à ação concreta
O desafio central revelado pelo estudo é converter a empatia em mobilização individual. Embora 93% acreditem que pequenas atitudes façam a diferença, a doação para associações locais ainda é uma prática de apenas 38% da população, ficando atrás das doações para igrejas (51%).
O perfil de quem se engaja varia: a participação em mobilizações online e doações para associações é significativamente maior entre brasileiros com renda acima de 5 salários mínimos (53% e 45%, respectivamente).
Gráfico 6: Cruzamento do perfil de vocação para engajamento por renda

A pesquisa da Quaest reafirma que o Brasil possui um solo fértil para a proteção da biodiversidade. O país já se importa e reconhece o valor da fauna silvestre; o caminho agora é fortalecer as pontes entre a emoção e a ação prática e coordenada.
Onde a mensagem encontra o brasileiro
Para que as campanhas de conscientização sejam eficazes, é necessário entender os hábitos de consumo de informação da população. A TV aberta continua sendo o canal de comunicação mais potente, presente na rotina diária de 47% dos entrevistados. No ambiente digital, as plataformas de streaming (16%) já superam o acesso direto às redes sociais (11%) e ao YouTube (6%) como atividades rotineiras.
Gráfico 7: Quais dessas atividades fazem parte da sua rotina?

Esse panorama sugere que, para atingir uma massa crítica e sensibilizar o Brasil profundo, a combinação de narrativas emocionais na televisão com estratégias de conteúdo sob demanda em streamings é o caminho mais curto para fortalecer a rede de proteção à nossa biodiversidade.
Metodologia
A pesquisa quantitativa foi realizada de forma online com questionário estruturado aplicado a 2.000 brasileiros de 16 anos ou mais, entre 03 e 16 de julho de 2025. A margem de erro estimada é de 2 p.p. e o nível de confiança é de 95%.


