Dois turnos, dois plebiscitos

Por Felipe Nunes | CEO
Publicado em 30 de outubro de 2026

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A eleição deste ano começou como um plebiscito do governo Lula. Na pesquisa da Quaest na véspera do primeiro turno, a maioria (52%) achava que ele seria o vencedor. Com isso, ao pensar na eleição, o cidadão estava decidindo se Lula merecia continuar ou não. Naquele momento, o governo tinha 44% de aprovação e 49% de desaprovação. O medo da continuidade do seu governo era de 43%, superava o medo da volta da família Bolsonaro (40%). Essa má avaliação, combinada ao forte movimento de voto útil de direita na reta final fez Flávio passar na frente no 1º turno. 

Depois de virar na frente, Flávio Bolsonaro se tornou favorito para vencer a eleição presidencial. E a Quaest apontou que a opinião pública se deu conta disso. Ao longo do segundo turno, a expectativa de vitória mudou de lado e a maioria (51%) passou a achar que Flávio poderia ser o próximo presidente. O plebiscito passou a ser sobre ele. No sábado antes do primeiro turno, nossas pesquisas mostraram que os benefícios sociais do governo tinham invertido a tendência negativa da curva de aprovação. E a reação da campanha, das ruas e das redes, promoveu um crescimento do medo da volta dos Bolsonaro ao poder, que acabou maior que o medo da manutenção de Lula (45% a 42%).

A mobilização que carregou esse medo nas ruas foi impulsionada especialmente pelo engajamento digital da campanha contra Bolsonaro. Isso jogou por terra a ideia que só a direita sabia manusear as redes. O IPD da Quaest que mede a popularidade digital de marcas e personalidades desde 2018, registrou a virada de Lula sobre Flávio no ambiente digital logo após o primeiro turno. Como publicado na Folha, em 3/10, Flávio liderava com 78,0 pontos contra 72,2 de Lula; já na véspera do segundo turno (24/10), Lula abriu 6,5 pontos de vantagem, 82,7 a 76,2.

Foram dois plebiscitos. Quando o foco foi o governo mal avaliado, deu Flávio. Quando o foco passou a ser a possibilidade de um novo governo Bolsonaro, deu Lula. 

Essas mudanças de atitude foram documentadas pelas pesquisas da Quaest. Captamos viradas importantes de percepção. Mas não antecipamos, no entanto, a inédita e extraordinária mobilização no domingo que levou às urnas quase 5 milhões de novos votos em relação ao 1º turno. A abstenção caiu em 8 de cada 10 cidades brasileiras, na comparação do primeiro com o segundo turno. Ela foi de 21,08% para 19,22%, o menor desde 2006. Nas grandes cidades, a queda foi ainda mais forte. Em Salvador, a abstenção recuou de 20,1% para 15,7%: 85 mil eleitores que tinham faltado no primeiro turno apareceram no segundo. Na cidade do Rio de Janeiro, caiu de 26,1% para 23,0% – 156 mil eleitores a mais nas urnas, o suficiente para Lula virar na capital, de 43,9% para 51,5% dos votos válidos. Na cidade de São Paulo, foi de 23,4% para 20,4%, com 277 mil eleitores de volta. Brancos e nulos saíram de 4,77% para 3,24%, o menor percentual do século.

A pesquisa antecipou a mudança de sentimento, mas não deu tempo de ver a concretização racional do voto. Talvez porque o próprio empate técnico tenha sido a gota d’agua para o cidadão concluir que precisava ir votar para evitar o pior.

Essa onda sem precedentes acabou colocando em xeque os pressupostos do nosso modelo de eleitores prováveis (likely voter). O modelo estima quem vai votar com base no comparecimento e no perfil dos votantes entre 2010 e 2022, além da motivação e interesse com a eleição neste ano. Esses critérios funcionaram bem no segundo turno de 2022, nas eleições municipais de 2024 e no primeiro turno deste ano. Neste segundo turno, porém, tanto o volume quanto o perfil de quem compareceu mudaram. 

Ainda não sabemos quem exatamente puxou a queda da abstenção, mas os grandes números mostram que a abstenção saiu do padrão nas grandes cidades do Sudeste, que caiu mais nos bairros com renda média mais baixa; na pesquisa da véspera, os eleitores que tinham faltado no 1º turno eram mais jovens, mais pobres e mais favoráveis a Lula, e a parcela deles que dizia que iria votar subiu 12 pontos em uma semana. Já que o modelo assumia que esse eleitor seguiria em casa, como nas eleições anteriores, nossas estimativas de votos válidos não detectaram o potencial de arrancada de Lula no domingo da eleição.

Trabalhar com pesquisa não é sobre fazer previsão, mas sobre entender padrões de comportamento. Nesse processo de entendimento os modelos, as teorias, os padrões científicos são colocados à prova. Alguns continuam úteis, como o papel de Minas na eleição, como a força do incumbente, como a tese da calcificação, que mostrou como era difícil que lulistas e bolsonaristas, a esquerda e a direita, mudassem de opinião. O movimento de aprovação e medo aconteceu apenas entre os independentes, não nos polos, sugerindo que a mudança de comportamento no domingo tenha vindo também desse subgrupo. Foi ali que alguns deixaram a apatia para decidir a eleição.

Dois turnos, dois plebiscitos

Muitas máximas eleitorais, porém, caíram por terra em 2026. Por exemplo, sair na frente no primeiro turno já não é suficiente para garantir a vitória no segundo. Ter mais ou menos eleições de 2º turno para o governo do estado, não influencia tanto a taxa de abstenção. Assim como não se pode mais assumir que eleitores que tradicionalmente se abstém em maior número (eleitores de baixa escolaridade e mulheres idosas) não possam ser mobilizados para ir votar. 

Em disputas competitivas, em que o eleitor acredita que seu voto pode ser decisivo, podemos ver as cenas registradas em todo o país: os netos levando suas avós até as urnas; as pessoas viajando horas e horas para votar; e jovens criando um movimento de carona solidária por todo o país. Esse é justamente o efeito de mobilização que poderia surpreender em favor de Lula sobre o qual escrevi em artigo para este mesmo jornal no domingo. É assim que os improváveis aparecem.

Como bons cientistas, o time da Quaest vai buscar sempre aprimorar até mesmo aquilo que funcionou bem. Já estamos em campo com um estudo pós-eleitoral para compreender quando e onde aconteceram as novidades e as surpresas deste ano. Em breve, publicaremos o estudo completo.

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