As novidades da metodologia da Quaest para 2026

Por Quaest
Publicado em 17 de agosto de 2026

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No mundo das pesquisas eleitorais, há três desafios importantes que precisamos enfrentar para garantir que nossa amostra esteja bem calibrada e seja capaz de expressar, com a maior precisão possível, o sentimento do eleitorado brasileiro.

O primeiro desafio é garantir que todos os segmentos politicamente relevantes do eleitorado estejam representados na amostra.

Não basta entrevistar as proporções corretas de eleitores de acordo com a distribuição do eleitorado em termos de região, sexo, idade, escolaridade e renda. É preciso também garantir que o perfil político do eleitorado esteja corretamente representado na amostra.

Essa é uma preocupação que ganhou importância nos últimos anos. Depois de 2018, observamos um aumento considerável na capacidade dos eleitores de se autoidentificarem ideologicamente. Em 2002, aproximadamente 20% dos brasileiros não sabiam dizer se identificavam mais com a esquerda, o centro ou a direita. Hoje, esse percentual caiu para cerca de 4%.

Ou seja, o eleitor está mais interessado, politizado e consciente de sua identidade política, e essa dimensão precisa fazer parte do planejamento amostral de uma pesquisa eleitoral. Por isso, o sorteio dos municípios e dos setores censitários onde serão realizadas as entrevistas parte, neste ano, de um mapeamento das preferências eleitorais dos brasileiros nos últimos oito anos. Utilizamos um algoritmo de clusterização espacial para agrupar municípios e setores censitários com características políticas e sociais semelhantes. O objetivo é garantir que todos os segmentos políticos relevantes estejam necessariamente representados na amostra.

metodologia da Quaest

A partir desse mapa, sorteamos os 120 municípios onde serão realizadas as entrevistas. A mesma lógica é utilizada para o sorteio dos setores censitários dentro dos municípios selecionados. Dessa forma, buscamos garantir que a dispersão territorial das entrevistas dentro de cada cidade também respeite a dispersão das diferentes preferências políticas observadas nos últimos oito anos.

Essa é uma mudança importante: a dimensão política passa a ser incorporada de forma explícita ao desenho da amostra, e não apenas analisada depois que os dados são coletados.

O segundo desafio é a alienação eleitoral

Os dados do TSE mostram que a combinação de abstenção, votos brancos e votos nulos representa uma parcela muito significativa do eleitorado brasileiro. No primeiro turno de 2022, por exemplo, a alienação eleitoral chegou a aproximadamente 24,4% do eleitorado. Para 2026, trabalhamos com a possibilidade de que esse percentual permaneça próximo de um quarto do eleitorado.

A evolução histórica também mostra que esse fenômeno não é linear. A alienação eleitoral foi de 26,3% em 2002, caiu para 23,8% em 2006, voltou a crescer até 27,3% em 2018 e recuou para 24,4% em 2022. Se a alienação fosse aleatória — isto é, se todos os tipos de eleitores deixassem de votar na mesma proporção — não haveria necessidade de tomar nenhuma providência adicional.

Mas os estudos que temos realizado na Quaest mostram que a probabilidade de comparecer às urnas não é igual entre todos os segmentos do eleitorado. Há um padrão claro: a abstenção é maior entre eleitores de menor escolaridade e renda e também entre eleitores com 60 anos ou mais.

Isso tem uma consequência importante para as pesquisas. Se simplesmente transformarmos intenção de voto em votos válidos sem levar em consideração a probabilidade de cada eleitor efetivamente comparecer às urnas, podemos superestimar o desempenho de candidatos que são mais fortes justamente entre os grupos com maior propensão à abstenção.

A solução que adotamos em 2022 e 2024, e que será novamente utilizada em 2026, é calcular os votos válidos a partir de um peso que calibra a intenção de voto pela probabilidade de determinado perfil de eleitor comparecer ou não às urnas.

Essa abordagem é conhecida internacionalmente como likely voter model. Trata-se de uma família de técnicas utilizada há décadas em pesquisas eleitorais, especialmente nos Estados Unidos. A Quaest passou a incorporá-la
às suas estimativas de votos válidos nas eleições de 2022 e 2024 e voltará a utilizá-la em 2026, adaptada às características do eleitorado brasileiro.

O objetivo é simples: não basta saber em quem o eleitor pretende votar; é preciso estimar a probabilidade de que ele efetivamente transforme essa intenção em um voto.

O terceiro desafio é a decisão tardia do voto

Em uma pesquisa recente da Quaest, mostramos que 15% do eleitorado apto a votar decide o voto para presidente na última semana ou no próprio dia da eleição. Desse total, 9% deixam para decidir na última semana e 6% no próprio dia da eleição.

Ou seja, aproximadamente um em cada seis eleitores chega à reta final sem ter definido sua escolha com antecedência.

Foi justamente esse fenômeno que estudamos no artigo Pesquisas eleitorais e mudanças tardias na decisão do voto, publicado na revista Opinião Pública. O estudo mostra que parte da distância eventualmente observada entre a última pesquisa e o resultado da eleição pode ser explicada por mudanças reais de preferência ocorridas entre o momento da entrevista e o dia da votação.

Identificamos dois mecanismos centrais:

O primeiro é o voto estratégico: o eleitor abandona seu candidato preferido ao perceber que ele não tem chances de vencer ou de chegar ao segundo turno e migra para uma candidatura competitiva. Em São Paulo, na última eleição para governador, por exemplo, parte do eleitorado de Rodrigo Garcia, identificado com uma posição antipetista, percebeu na reta final que seu candidato tinha poucas chances de chegar ao segundo turno e migrou para Tarcísio de Freitas. Essa movimentação contribuiu para que o resultado final de Tarcísio fosse superior ao que as pesquisas indicavam na última semana.

O segundo mecanismo é o alinhamento dos indecisos, formado por eleitores que chegam à reta final sem uma escolha definida e acabam decidindo seu voto nos últimos dias ou mesmo no dia da eleição. Esses dois movimentos podem alterar significativamente o resultado. Uma migração de eleitores indecisos ou de eleitores que abandonam seu candidato preferido em direção a uma candidatura competitiva pode mudar completamente a composição da votação.

A principal lição para 2026 é que não basta medir apenas a fotografia do voto no momento da pesquisa. É preciso também identificar quem ainda pode mudar, por que pode mudar e para onde tende a ir. Por isso, a estratégia da Quaest em 2026 será acompanhar com atenção especial, sobretudo na reta final, os segmentos mais propensos à mudança, incorporando às nossas análises modelos capazes de estimar o potencial de realinhamento dos indecisos e do voto estratégico antes da eleição.

Em outras palavras, a pesquisa de 2026 tentará lidar com os enormes desafios e a complexidade da opinião pública para oferecer aos brasileiros a melhor fotografia das intenções de voto possível, reconhecendo os limites intrínsecos ao nosso trabalho. Explicamos o passado, o que aconteceu no momento em que a pesquisa foi coletada, nunca o futuro. Já que o eleitor informado é soberano para decidir quais as propostas, candidatos e partidos melhor representam seus desejos, sonhos e anseios.

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